CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Correia, João Afonso

 

Segundo Henrique Henriques de Noronha, João Afonso Correia, era filho de D. Isabel Correia e de Gonçalo Annes de Azevedo e foi companheiro de João Gonçalves Zarco e um dos primeiros e principais povoadores da Ilha da Madeira.

João Afonso Correia [...] se achava com João Gonçalves Zarco em 1419 no descobrimento da Ilha da Madeira onde passou entre os companheiros nobres de João Gonçalves Zarco como um dos primitivos, e principais povoadores da Ilha da Madeira como se vê do Doutor Gaspar Frutuoso na sua história da dita ilha, falando dos companheiros do Zarco (Livro 2.º capítulo 5, e o repete Manuel Tomaz na sua Insulana no Livro 9.º oitava 105 onde falando dele diz o seguinte:

                     "De João Afonso ilustre descendente

                       A Ilha irá com glória aumentando"

Teve alguma superintendência na fazenda do Infante D. Henrique, pelo que diz Frutuoso que tinha em seu poder uma memória da letra do mesmo infante para João Gonçalves Zarco com as palavras seguintes:

Dizei a João Afonso Correia que corrija outra mó, e se faça um moinho de água segundo o de Tomar seja-vos de lembramento de mandares o Pastel que se corrija, e dizei a João Afonso que mande algum se está corrigido.

É sem dúvida que teve do dito Infante grandes mercês e foi senhor de muitas terras que eram todas suas no limite de Câmara de Lobos onde fez um dos primeiros engenhos de açúcar que ali houve e umas nobilíssimas casas em que viveu. Fundou também para jazigo de seu corpo a Capela do Espírito Santo que serve ao Santíssimo Sacramento na igreja paroquial de Santa Maria Maior do Calhau na cidade do Funchal a qual anexou em morgado de seus bens que administram seus descendentes primogénitos e nela jaz sepultado desde o ano de 1490 em que faleceu.

Foi casado sendo já de maior idade, com Inês Lopes filha de Lopo Afonso de Bolhão, em Lisboa, segundo faz menção em seu testamento de umas casas que tinha na dita cidade de Lisboa onde morava sua sogra cuja notícia tomou fundamento Diogo Gomes de Figueiredo para dizer que ela era natural de Lisboa, faleceu a dita Inês Lopes no ano de 1522, e jaz sepultada com seu marido na mesma capela.

Do seu casamento com Inês Lopes teve João Afonso Correia dois filhos: António Correia e D. Isabel Correia.

Contudo, outros autores como “Valdemar Guerra” contestam esta versão de Henrique, Henriques de Noronha, relativamente não só ás origens nobres João Afonso Correia, como ao facto de ter sido um dos companheiros de Zarco e acusam-no de, através de falsificações e destruição de documentos ter tentado ocultar as suas controversas origens, isto porque Henrique Henriques de Noronha é, ele próprio, um dos descendentes de João Afonso Correia.

 

 

Excerto do texto publicado no "Arquivo Regional da Madeira - Rol dos judeus e seus descendentes” (pág. 217-221), onde Valdemar Guerra através da consulta de vários documentos demonstra que João Afonso Correia, não tinha sido companheiro de Zarco na descoberta da Madeira, sendo antes um mercador, casado com uma negra, facto que compromete a linhagem de nobreza dos seus descendentes, onde se inclui Henrique Henriques de Noronha e os viscondes de Torre Bela.

 

 

[…] Na verdade, um seu ascendente, João Afonso, que se fixara na Madeira cerca de 1466, casado com Inês Lopes, fora apenas um mero mercador e grosso produtor de açúcar que fez fortuna na Ilha, e jamais um dos «companheiros nobres» de João Gonçalves Zarco, na empresa do povoamento insular, como o genealogista (Henrique Henriques de Noronha) pomposamente pretendeu fazer crer.

Sobre semelhantes dissimulações, vejamos alguns trechos de uma carta, particularmente demolidora, que o vigário da Fajã da Ovelha, Manuel Sulpício Pimentel da Area, natural do Funchal, escreveu em 1765 ao seu irmão, o Dr. António Xavier Pimentel, amigo de António João Correia Brandão Henriques, bisneto de Henrique Henriques de Noronha, acerca das eleições, supostamente fraudulentas, da mesa da Misericórdia do Funchal, para a qual havia sido eleito, entre outros, o referido António João.

Pimentel adverte o irmão de que, em criança, mantivera «algumas conversas» com Pedro de Carvalho Valdavesso e o seu filho, ambos Juízes dos Órfãos, e principalmente com um velho clérigo «que era a Tourre do Tombo das geraçoens da Ilha», factor que lhe permitiu colher diversas informações genealógicas. Conservava na sua posse «papeis de grande credito coroburando com provas autenticas e dignas de toda a fé» os dados que havia investigado, «pela corozidade que sabeis tenho de indagar antiguidades» [1].

Por essa razão, e referindo-se a António João Correia, que manifestamente detestava, interrogava o clérigo: «não sabe este vil que he decendente de Ines Lopes natural de Lisboa mulher vil e nutada, e que por esta e outra, cujo nome não refiro, (...) forão sempre notados os seus antepassados (...) e chigou a tal extremo a publiçidade desta nota, de que ainda não estão livres (...) porque erão tidos e avidos por christoens novos»? E, incisivo, tornou a questionar:

«Não sabe que por parte dos Henriques e Noronhas he decendente de huma negra»? Na sua missiva, o clérigo não poupa o genealogista: «Não sabe que seu malvado vizavôu Henriques Henriques, para ofuscar as nottas que padeçia no sangue e na qualidade, destruio e aniquilou com agua forte dois livros, hum de Cazados, outro de Baptizados da freguezia da Sé, depois do que fingio justefi­caçoens e brazoens perfumando-os com fumo de tabaco, para lhe dar cor de anti­guidade, as introduzio nos Cartorios desta cidade, para ao depois tirar por certi­dão, emnobrecendo desta sorte e falçamente aos seus avoengos; e o que mais he, ocultado os estrumentos que (...) lhe fiarão os que erão asnos, para infamar todas as mais familias e para elle so poder lustrar»?  [2].

Perante tamanha acusação, apenas podemos assegurar de que, efectivamente, um dos livros de casamentos da Sé encontrava-se em tão mau estado que foi necessário copiá-lo em 1731, não obstante muitos termos se acharem já então ilegíveis, tendo o mesmo ocorrido com um dos livros de baptismos [3].

Por outro lado, importa referir, na circunstância, que foram arran­cados dois fólios do precioso tombo primeiro do registo da Câmara do Funchal, redigido em caligrafia gótica, nos quais se encontravam jus­tamente exaradas — estranha coincidência — a carta de vizinhança de João Afonso, mercador, e uma outra de confirmação, ambas outorga­das por D. Beatriz, mãe do Duque de Viseu [4]. Curiosamente, exis­te uma cópia dos dois diplomas no Arquivo da Família Torre Bela, tras­ladada, imagine-se, pelo próprio punho de Henrique Henriques de Noronha. Um dos documentos, menciona um agravo efectuado por João Afonso, mercador, em Janeiro de 1477, no qual afirmava «que havia dez annos pouco mais ou menos que elle vivia na dita Ilha», cuja decla­ração faz excluir a hipótese de ter sido um dos «com pinheiros nobres» de Zarco, nem tão-pouco servidor da casa do Infante [5].

Sobre a matéria em apreço, acresce ainda dizer que desapareceu — outra coincidência — um fólio do antigo tombo da Misericórdia do Funchal, precisamente onde começava o testamento de João Afonso, mercador[6]. De resto, nos traslados da referida cédula testamentá­ria, incorporados no Arquivo da Família Torre Bela, a palavra «merca­dor» foi, num caso, ostensivamente rasgada, e noutro, substituída tos­camente por «Correia». Significativo, sem dúvida.


[1]  Agradecemos penhoradamente ao Sr. David Ferreira de Gouveia, investigador da História da Madeira, radicado há muitos anos no Brasil, a gentileza de nos ter facultado uma fotocópia deste curioso documen­to do seu arquivo particular.

[2] Ibidem. Quando o padre Manuel Sulpício Pimentel da Area faleceu, em 17 de Fevereiro de 1778, residia com o irmão numa casa na Rua dos Moinhos — ou seja, o troço superior da Rua das Mercês — que lhe havia sido doada pelos pais como património eclesiástico. O clérigo refere na carta que mantivera «algumas conversas», em criança, com os Valdavesso, «por razão de vizinhança», e de facto aquela família possuía a «Quinta de Sintra», na qual foi edificada a capela de Nossa Senhora da Saúde, situa­da logo acima da mencionada artéria. (Vide o testamento do clérigo no ARM, CF, Registo de Testamentos, T. 6, n.º 1256, fls. 262v.º-265v.º).

[3] Trata-se do L.º 9 de Casamentos da Sé (1614-1673) e do L.º 16 de Baptismos (1632-1657), com as cotas n.º 54 e n.º 16, respectivamente. O L.º 9 original foi incorporado na Torre do Tombo e encontra-se em pés­simo estado. (AN / TT, Cabido da Sé do Funchal, n.º 35).

[4]   São os fólios x e xj. De acordo com o índice elaborado pelo copista Frei Diogo de Medina, no primeiro fólio estava exarada a «carta de vezi­nhança de Joham Afonso» e no outro fólio um diploma «em que se confir­ma a sobredita carta de vezinhança». (ARM, CF, RG, T. 1, n.º 1395, fl. n.n.).

[5]  Obviamente, não interessava ao «zelador da boa fama da nobreza instala­da» mencionar semelhantes diplomas, que deitariam por terra o em­buste por ele próprio engendrado. No primeiro documento, outorgado em Évora, em 3 de Julho de 1477, a Infanta D. Beatriz, considerando o agravo apresentado pelo mercador, em 31 de Janeiro do mesmo ano, ordenava ao Capitão do Funchal que lhe concedesse «sua carta de vizi­nhança na forma que se da aos outros vizinhos da terra». João Afonso alegou que João Gonçalves da Câmara tinha-lhe derrogado os privilégios da vizinhança, não obstante viver na Ilha há cerca de dez anos «na qual elle fora prinçipal e hum dos primejros que na dita Ilha edificarão e fizerão emgenhos de moerem canas de asucar e isso mesmo serras de agua» na Ponta do Sol. Acrescentava que «pos muitas canas» e tinha no «logo de Comara ele Lobos muitas terras de pam e latadas e canaveais e cazas de morada suas proprias asim em Camara de Lobos como no Funchal e escravos e outra muita fazenda». Invoca ainda que o capitão havia-lhe dito «que sem embargo de todo levasse sua molher pera a dita Ilha e que tanto que a levasse que vos o haverieis por vezinho e gozaria do privilegio e liberdades da terra», circuns­tância que não se verificou. O segundo diploma feito em Lisboa, em 21 de Fevereiro de 1478, é de novo dirigido ao Capitão do Funchal que não havia cumprido a determinação anterior. João Afonso, fizera outro agravo, alegando agora que «havia doze annos que continuadamente vivia em essa Ilha», e que quando apresentou a carta antecedente, o capitão afirmou-lhe que estava «de caminho pera Portugal e que me falarieis em ello, emtão compririeis o que eu mandase». D. Beatriz ordenou que executasse de imediato a sua resolução, «asentando daqui em diante no rol dos vizi­nhos sem lhe mais pordes em ello nenhuma duvida nem embargo». Quando transcrevemos estes documentos em 1990, achavam-se na Cx. 1 do Arquivo da Família Torre Bela, o qual actualmente se encontra em fase de adequada catalogação. Apesar de termos utilizado diversa docu­mentação deste fundo num pequeno artigo que escrevemos, no mes­mo ano, intitulado Breves apontamentos acerca do Morgado da Torre em Câmara de Lobos, (Girão, n.º 5, 1990, 2.º Semestre, págs. 211-216), por iro­nia do destino, só localizámos os dois diplomas logo após a publicação do trabalho.

[6]  Trata-se do fólio 16 do n.º 710 da Misericórdia do Funchal. Existe outro traslado do testamento de João Afonso, mercador, inserto no processo da sua capela que, certamente por mero acaso, não foi também oblite­rado. Entre outras matérias, lê-se na cédula testamentária, aprovada em 13 de Maio de 1490, uma curiosa verba: «mando que na dita capella se digua misa por mjnha allma e daquelles que me ajudarão a guajnhar o que
tenho».
(ARM, Juízo dos Resíduos e Capelas, Processo da capela de João Afonso, mercador, Cx. 17, Proc. N.1, fl. 7v.º). O testador — residente na Madeira desde cerca de 1466 — referia-se à capela que mandara cons­truir na desaparecida Igreja de Santa Maria do Calhau.

 

 

 

Câmara de Lobos

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Manuel Pedro Freitas

Câmara de Lobos, sua gente, história e cultura