CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Artigo de Manuel Pedro Freitas sobre a história das levadas do concelho de Câmara de Lobos, publicado no Jornal da Madeira de 18 e 25 de Abril, 2, 9, 16 e 23 de Maio de 1999

 

 

 

A levada da Castanheira

A levada da Castanheira é uma das levadas da freguesia de Câmara de Lobos. Ainda que não se saiba o ano da sua construção, nem quem terá sido o seu construtor, ela já existia em 1863, sendo na altura os seus giros de 29 dias.

Para além da sua denominação de Castanheira, esta levada surge também como levada da Fonte de Álvaro Figueira, numa referência directa à nascente que constitui a sua origem; como levada da Fontal Figueira ([1]), reflectindo não só a nascente onde tem a sua origem, mas também a erosão da expressão Fonte de Álvaro Figueira e, ainda, como levada dos Quintais, denominação de uma importante zona que irrigava e situada no centro da vila de Câmara de Lobos.

Relativamente ao epíteto de Álvaro Figueira dado à nascente e levada, o Elucidário Madeirense ([2]) refere que um dos povoadores da Madeira se terá chamado de Álvaro Figueira e que teria tido terras de sesmaria em Câmara de Lobos, facto que poderá explicar a denominação da fonte onde tem origem a levada e, eventualmente, ainda que, no campo da especulação, permitir levantar hipóteses sobre o seu ou seus construtores.

 

A origem da levada

A levada da Castanheira recebe água de uma bela fonte ao Oeste da dita ribeira [ribeira do Estevão ou da Ribeira da Caixa] e rega de a Água de Alto até aos terrenos que circundam a vila da sobredita freguesia [Câmara de Lobos] em extensão de meia milha ([3]).

Corresponde a bela fonte à Fonte de Álvaro Figueira, popularmente também conhecida por Fontal Figueira e situada não na margem Oeste mas na margem Leste da ribeira em causa, numa zona pertencente ao sítio da Quinta do Leme, ainda que situada quase que na transição entre este sítio e o de Pico e Salões. Para além da nascente que, de forma predominante, alimenta a levada da Castanheira, a fonte de Álvaro Figueira engloba também outras nascentes situadas no local e que apesar de possuírem menor débito não deixam de contribuírem, para alimentarem a levada da Castanheira, para irrigarem alguns terrenos próximos e ainda para irrigarem os inhames, uma propriedade anexa à fonte de Álvaro Figueira e plantada a inhame. Esta plantação, propriedade da Comissão da levada, era anualmente dada de arrendamento a vários colonos.

 

O percurso da levada

Ainda que tomando a sua água na Fonte de Álvaro Figueira, situada na margem Leste da ribeira, a levada da Castanheira ou de Álvaro Figueira, tem início um pouco mais abaixo da fonte, na margem Oeste da ribeira, captando no leito desta, a água que para ela brota a Fonte de Álvaro Figueira.

Depois de um percurso de várias dezenas de metros, para sul, ao longo da margem Oeste da ribeira, onde na propriedade conhecida por quinta do Serrado, servia de força motriz a três ou quatro moinhos, a levada acabava por, no lugar da Fonte da Rocha, atravessar a ribeira, através de uma ponte aí existente e passar para a sua margem Leste, não sem antes alimentar um outro moinho ([4]).

Chegada à margem Leste da ribeira, a levada dirigir-se-ia para o centro da vila, passando atrás dos actuais paços do concelho ([5]) e depois teria um percurso coincidente com a margem norte da actual rua Dr. João Abel de Freitas, admitindo-se que, até ao primeiro quartel do século XX, pudesse atingir ainda parte do sítio do Espírito Santo.

No centro da vila de Câmara de Lobos, para além de irrigar uma importante área agrícola, conhecida por Quintais ou também por Levada, a sua água, segundo a tradição, seria ainda utilizada por dois engenhos então existentes na rua da Carreira.

Para além do centro da vila de Câmara de Lobos, a levada da Castanheira também irrigava, um lugar denominado de Água de Alto, no sítio da Quinta do Leme ([6]). Situando-se este lugar na margem Leste da ribeira, a água chegava até lá, mediante uma derivação da levada da Castanheira, com início junto à ponte do Serrado.

 

Os corpos gerentes

A existência de um livro de actas da sua Comissão Administrativa com início em 1944, bem como de um livro de registo de receitas e despesas, com início no mesmo ano, permite-nos saber que, em 1944 era seu presidente João Policarpo Pereira, seu tesoureiro, João de Sousa, seu secretário, Francisco Firmino Henriques e seus vogais Luís Soares de Sousa e José de Sousa.

Em 1946, em virtude da morte de Francisco Firmino Henriques, passa a ocupar o lugar de tesoureiro, João Figueira, cargo onde se mantém até 1952, altura em que, a seu pedido, é substituído por João Soares Araújo de Sousa, herdeiro do heréu Luís Soares de Sousa. Em 1956, por morte de João Soares Araújo de Sousa, sucede-lhe como tesoureiro, seu filho, Orlando Soares de Sousa.

Em 1961, altura em que tem lugar o último registo no livro de actas, mantinha-se à frente da Comissão João Policarpo Pereira e, como responsável pela presidência, Orlando Soares de Sousa, que assegura até 1974, o registo de todas as despesas e receitas.

 

Os custos da água

Em 1944, a levada da Castanheira possuía um levadeiro a quem pagava 250$00 por ano e possuía dois tipos de água: a água de renda, que nessa altura importava em 300$00 por dia e a água de propriedade, também chamada de terral de água, pela qual os heréus não pagavam nada, sendo esta uma água inerente à propriedade e a ela associada sempre que era alvo de transacção.

Naturalmente que os preços tanto da água de propriedade, como da água de renda variavam consoante as despesas inerentes à manutenção da levada. Desta forma assiste-se a valores da água de propriedade que vão de zero a 25$00 por hora e da água de renda que chega a atingir os 600$00 por dia e que de certa forma tinham a ver com as despesas anualmente previstas.

Apesar de, contrariamente a outras importantes levadas de Câmara de Lobos, esta não ter sido absorvida pelos Serviços Hidráulicos,  em 1954 a fonte de Álvaro Figueira, esteve prestes a servir de abastecimento de água potável à vila de Câmara de Lobos. Contudo, problemas relacionados com a oposição dos heréus da levada, com a qualidade e caudal da água e ainda problemas de natureza técnica viriam a fazer com que fosse preterida em favor da fonte Serrão ([7], [8], [9], [10]).

 

A extinção da Comissão

Em 1974, a Comissão da levada acabaria por se extinguir, como forma organizada, situação que não inviabilizaria, no entanto, a continuação do funcionamento da levada. Ainda que seja difícil de precisar os motivos desta crise, não será de excluir as consequências da revolta militar de 25 de Abril de 1974, sobre a agricultura e nomeadamente no relacionamento entre senhorios e caseiros e, também a utilização de muitos dos terrenos irrigados pela levada, para a construção, principalmente no centro da hoje cidade de Câmara de Lobos.

 

A plantação de inhame

A propriedade de inhame que a Comissão da levada possuía junto às nascentes e que a par da água de renda, constituía uma das suas receitas, nunca viria, contudo a ser alienada, encontrando-se hoje na posse daqueles que, ao tempo da extinção da Comissão, eram seus colonos ou arrendatários.

Relativamente a esta propriedade e, como curiosidade, refira-se que, actualmente ela mantém-se plantada a inhame e, apesar de ser pouco extensa, possui um número de colonos que poderá ultrapassar os 30, muitos deles detentores de menos do que 10 metros quadrados de plantação. Em meados do século XX, nos dias que antecediam a Semana Santa, época em que era hábito comer este tubérculo, não era raro verem-se no local quatro ou cinco dezenas de pessoas, constituídos por colonos e seus familiares, umas a arrancarem o inhame e outras a lavarem-no na ribeira anexa.


 


[1]      SILVA, FA. MENESES, CA. Elucidário Madeirense, Vol. II, SRTC, Funchal, 1984, pg. 249-250.

[2]      SILVA, FA. MENESES, CA. Elucidário Madeirense, Vol. II, SRTC, Funchal, 1984, pg. 29.

[3]      Livro 4º. de Registos de Ofícios da Administração do Concelho a fls. 5v, 6, 7 e 8. Ano de 1863. Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

[4]      Na sessão camarária de 17 de Julho de 1936 é solicitado licença para lançar no sub-solo da estrada municipal 175, canos de manila de cimento, na extensão de 60 metros para condução de água da levada da Fonte Álvaro Figueira ao moinho da Fonte da Rocha, freguesia de Câmara de Lobos.

[5]      Na sua sessão de 23 de Outubro de 1980, ao ser delimitada uma parcela de terreno a expropriar para a construção dos actuais paços do concelho, no largo da República, esta parcela de terreno surge confronta pelo norte com a levada da Castanheira.

[6]      Livro 4º. de Registos de Ofícios da Administração do Concelho a fls. 5v, 6, 7 e 8. Ano de 1863. Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

 

[7]      Na sessão camarária de 11 de Junho de 1954, numa altura em que se procedia às obras de abastecimento de água potável à vila de Câmara de Lobos, tanto a água da Fonte Serrão, como a da Fonte de Álvaro Figueira constituíram opções para esse abastecimento, admitindo-se, na altura, não existirem significativas diferenças de qualidade entre ambas.

[8]      Na reunião camarária de 23 de Junho de 1954 são apontadas algumas dificuldades inerentes à captação de água da Fonte de Álvaro Figueira para abastecimento de água potável à vila. Com efeito, segundo a respectiva acta, não sendo a referida nascente propriedade da Câmara os respectivos proprietários opunham-se a que realizem ali trabalhos, acrescendo ainda o facto de nos terrenos sobranceiros à referida nascente existirem outras nascentes cujos caudais poderiam vir a ser prejudicados acarretando assim grandes responsabilidades para o Município.

[9]      Apesar das dificuldades encontradas para a captação de água a partir da fonte de Álvaro Figueira a opção inicial acaba por recair nela, sendo de acordo com as actas da sessão camarárias de 9 de Dezembro de 1954 e de 23 de Março de 1955, autorizadas as respectivas obras.

[10]     Apesar de terem sido iniciadas algumas das obras previstas no projecto, na sessão de 8 de Fevereiro de 1956, mediante um parecer da Direcção de Serviços de Salubridade, é deliberado fazer o abastecimento de água à vila de Câmara de Lobos através da água da Fonte Serrão, em vez da Fonte de Álvaro Figueira por ser, de facto, a solução mais adequada, quer pela qualidade e caudal da água, quer pela maior zona que virá ficar servida.

Naturalmente que apesar das pessoas reconhecerem, em termos práticos, melhor qualidade na água da Fonte Serrão, não faltou quem tivesse atribuído a alteração do local de captação de água, a pressões exercidas por que tinha terrenos no centro da vila e que eram irrigados pela água da levada da Fonte de Álvaro Figueira.

 

Câmara de Lobos

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Manuel Pedro Freitas

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