CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z
 
Entrada > Dicionário > L > Levada do Estreito
 

Artigo de Manuel Pedro Freitas sobre a história das levadas do concelho de Câmara de Lobos, publicado no Jornal da Madeira de 18 e 25 de Abril, 2, 9, 16 e 23 de Maio de 1999

 

 

Levada do Estreito

 

Em 1863 [1], a levada do Estreito era descrita como tendo origem em três fontes situadas no lugar dos Tis, no sítio das Romeiras, na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, em terrenos que, pertenciam aos herdeiros de Pedro Santana. Estendia-se por mais de uma légua e regava não só a freguesia do Estreito, como parte da de Câmara de Lobos. Na altura ignorava-se a data da sua construção, admitindo-se no entanto que fosse mais nova do que as levadas Nova de Câmara de Lobos e de Braz Gil [2].

Os seus giros eram de 37 dias e, por antigo costume, aos domingos e quartas-feiras as águas das três fontes eram cortadas e aplicadas na rega dos terrenos dos herdeiros de Pedro de Santana [3], situação que causava grande transtorno no regime de repartição, uma vez que com frequência a água era cortada quando andava regando em distância de légua e légua e meia e para lá tinha de voltar nas duas vezes por semana.

Esta prática, contudo, ter-se-á perdido no tempo, uma vez que em 1934, a quando da aprovação de uns novos estatutos, ela não existia.

 

A levada em 1934

De acordo com o conteúdo de uns estatutos aprovados aos 29 dias do mês de Julho de 1934 [4], a levada do Estreito é uma entidade jurídica formada pela associação de co-proprietários ou heréus [5] das águas captadas no sítio das Romeiras, freguesia do Estreito, concelho de Câmara de Lobos, no local em que se juntam a ribeira dos Tis e a ribeira do Foro, e que, ora através do leito da ribeira, ora através de canais artificiais, a que afluem ou concorrem as águas de diversas fontes e nascentes vêem irrigar terrenos daquela freguesia e da freguesia de Câmara de Lobos.

 

Os prédios da levada

[...] Além das águas e dos canais em que derivam e decorrem, constituem objecto desse património os prédios rústicos situados nas Romeiras, da mencionada freguesia do Estreito, que confrontam: a) pelo Norte com a estrada Distrital e Francisco Correia Afonso e outros, pelo Sul com a ribeira dos Tis e a ribeira do Foro, pelo Leste com a ribeira dos Tis, Manuel Pestana e Francisco Pinto Figueira e, pelo Oeste com a ribeira do Foro e Joaquim Figueira de Barros; b) pelo Norte com a estrada Distrital, pelo Sul com Francisco Correia Afonso, pelo Leste com este Afonso e aquela estrada e, pelo Oeste com o Dr. Alberto Henriques de Araújo.

A acrescentar este património a Assembleia Geral de 29 de Julho de 1934 haveria ainda de dar autorização para a aquisição de mais um prédio para a levada, situado junto aos que já possuía e pertencente a Joaquim Figueira de Barros e outros [6].

 

Os corpos gerentes

Segundo o preceituado nestes estatutos a levada do Estreito teria sede na freguesia de Câmara de Lobos e seria administrada por uma comissão de cinco membros, eleitos de três em três anos, pelos respectivos heréus, em Assembleia Geral.

Desde 1934 foram presidentes da assembleia Geral da Levada do Estreito, o padre António Eduardo Henriques (1934); Cândido Augusto da Silva (1938); Luís Maria Pereira (1942); António de Sousa Quintal (1959); ainda que desde 1952, já tivesse vindo a presidir às assembleias gerais e actualmente Fernando Gerardo da Silva Lopes.

No mesmo período foram presidentes da Comissão Administrativa, João Policarpo Pereira (1934), padre António Eduardo Henriques (1938), João Policarpo Pereira (1943), João Ernesto Pereira (1969) e actualmente João Augusto de Barros Figueira César.

 

Obrigações dos heréus

Anualmente a assembleia geral de heréus deveria, atendendo às despesas previstas, fixar a importância a que os heréus seriam obrigados a pagar por cada hora, sendo fixado o mês de Abril para o efeito.

No caso do não cumprimento desta obrigação, os heréus seriam demandados judicialmente pela Comissão Administrativa, que também poderia dar de arrendamento, pelos giros suficientes para integral reembolso das quantias em dívida, toda ou parte da água dos remissos, ficando assim esses heréus, durante tais giros, inibidos de a receber. Nesta situação, o arrendamento da água poderia ser feito em hasta pública, fixando a Comissão a base de licitação, sendo a água adjudicada a quem maior lanço oferecesse sobre essa base.

 

O caudal da levada

Tendo em 1863 um caudal que só dava para regar singelamente, nos anos 40, a levada do Estreito contabilizava quando em giro um total de 765 horas de água, das quais 620 correspondiam a água de propriedade e 145 a água de renda, o que se presume serem valores substancialmente superiores aos de 1863.

Na realidade, ao longo dos anos constata-se os esforços dos responsáveis pela levada no sentido de aumentarem o seu caudal e de que é exemplo a criação de um espaço popularmente conhecido por mantas, numa propriedade da Comissão, situada nas Romeiras, para onde as águas das chuvas que corriam nas bermas de alguns caminhos, situados a montante, eram canalizadas e deixadas a se infiltrar nos terrenos, por forma a reforçar o lençol de água onde tinha origem as nascentes que abasteciam a levada.

Outros exemplos dos esforços em prol do aumento do caudal da levada são: a exploração, em 1935,através de túneis, de água no terreno que a levada possuía no sítio das Romeiras [7]; a aquisição em 1938 dos direitos de exploração de águas pertencentes a João Policarpo Pereira e José de Barros Júnior sobre terrenos do Dr. Alberto de Araújo [8];a aquisição em 1943 dos direitos de exploração de águas em terrenos situados no sítio das Romeiras e pertencentes a Manuel Rodrigues Pita, de José Joaquim da Costa e de João Figueira de Faria [9]; a aquisição do direito de exploração e canalização de água do terreno de Maria Manuela Macedo e Silva, situado no sítio das Romeiras [10] e a canalização, em 1947, de água dos poços denominados do Andrade e do Ricardo, para o túnel que a levada possuía num seu prédio no sítio das Romeiras [11].

 

Canais comuns a várias levadas

Nalgumas situações os canais da levada do Estreito poderiam ser comuns a outras levadas ou poderiam eventualmente servir de passagem de águas alheias às da levada, quer de forma gratuita, quer mediante determinadas contrapartidas financeiras, que ficavam ao critério da Comissão. A este propósito, refira-se que os estatutos da levada do Estreito, aprovados em 1934, deixavam bem claro que, a partir do sítio da Ribeira Fernanda, o canal em que as águas da levada do Estreito corriam era comum, tanto às águas da levada do Estreito, como às da levada dos Terços.

 

Os rendimentos da levada

Para além da chamada água de propriedade, inerente aos terrenos com direito a esta água, a levada do Estreito também possuía água de renda, ou seja, água que excedia a que por direito pertencia a cada heréu, como água de propriedade. Esta água era então dada de arrendamento quer aos heréus quer a terceiros, mediante uma contrapartida financeira, que em 1934 seria fixada em 80$00 por hora, chegando posteriormente a atingir valores de 180$00.

A água de renda, bem como os rendimentos provenientes dos terrenos que a levada possuía e arrendados a mieiros e a colonos, constituíam as receitas da levada, receitas estas que eram suficientes para suportarem os custos, não só da sua manutenção como o pagamento de um levadeiro e de dois vigias, ao longo de toda a duração dos giros de rega.

 

Condutas em cantaria e emanilhamento

Em parte significativa da sua extensão a levada apresentava condutas de cantaria lavrada, em "U" e em 1928 [12] terá sido, nalguns dos seus segmentos emanilhada, com os consequentes benefícios para os heréus, nomeadamente reduzindo os desvios e roubos.

A este propósito, necessário será referir que, por um lado, sendo a água para rega um bem escasso e dispendioso e, por outro, não havendo abastecimento de água ao domicílio, a passagem da água na levada fazia com que as pessoas aproveitassem para dela retirarem uns aguadores de água com o fim de lavarem terreiros ou regar as flores, ou mesmo regarem uma ou duas mantas de verdura etc., facto que pela quantidade de pessoas que recorriam a tal prática, se reflectia no caudal final da levada. Esta situação obrigava a que para além do levadeiro, a Comissão da levada tivesse de recorrer a vigilantes, por forma a impedir o roubo frequente de água. Sendo esta uma situação dispendiosa é natural que a passagem da água em canais fechados, ou seja, o seu emanilhamento, apesar de poder ser um investimento dispendioso acabava por ser uma opção vantajosa, tanto para a Comissão da levada como para os heréus.

Ainda relativamente às condutas de cantaria lavrada em U que faziam parte da rede de distribuição da levada do Estreito, refira-se como curiosidade, que devido ao declive da levada, à regularidade da sua superfície interna, ao efeito de polimento produzido pela passagem da água e à formação de lodo, o seu leito tornava-se extremamente escorregadio, particularidade que era aproveitada pelas crianças para, colocadas no seu interior, se arrastarem ao longo dela. Naturalmente que, pese o facto de se divertirem imenso, numa altura em que outros tipos de diversões não abundavam, pela velocidade atingida, não raros eram os acidentes traumáticos, isto para não falar no estado que ficavam as suas roupas e nas tareias que apanhavam quando chegavam a casa.

 

Percurso e áreas de irrigação

A levada do Estreito estendia-se por um percurso que compreendia a Azinhaga do Dr. António Vitorino de Castro Jorge, entrando depois na rua Dr. António Vitorino de Castro Jorge, onde fazia mover sucessivamente três moinhos, os dois primeiros integrados na propriedade do Dr. Sabino de Abreu e o terceiro pertencente a Manuel Justino de Jesus. Ao chegar ao largo do patim a levada bifurcava-se em dois importantes ramais, um que ia pelo caminho do cemitério, em direcção ao Pico do Rato e outro que ia pela actual rua prof. José Joaquim da Costa, fazendo mover no seu trajecto pelo menos três moinhos integrados na propriedade de Francisco Figueira Ferraz. Ao nível do Jogo da Bola, deste ramal seguia um outro que irrigava alguns terrenos na Vargem e Panasqueira. Ao chegar ao chão do lugar do Salão a levada voltava a se bifurcar, seguindo um ramal através do actual caminho de São João e outro ramal através do caminho da Bela Vista, atingindo, tanto estes dois ramais, como o do Pico do Rato, a freguesia de Câmara de Lobos, onde vários terrenos eram irrigados pelas águas provenientes do Estreito.

 

O fim da levada do Estreito

Com a inauguração, em 1951, da levada do Norte, as águas bem como os canais da levada do Estreito passaram para a posse dos Serviços Hidráulicos da Madeira e, sensivelmente, a partir de 1952, a levada deixou de existir como levada de heréus, mantendo-se, contudo em actividade a sua Comissão Administrativa, dado o facto de possuir ainda no seu património algumas propriedades.


 


[1]      Livro 4º. de Registos de Ofícios da Administração do Concelho a fls. 5v, 6, 7 e 8. Ano de 1863. Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

[2]      Atenção, esta levada pode afinal ser mais antiga uma vez que o Dr. Nelson Veríssimo  no seu último livro faz referências a problemas nesta levada, no século XVII.

[3]      Será que se trata do Dr. Pedro de Santa Ana casado no ano de 1836, na igreja de São Pedro com Maria Benvinda Leal? (L.129, 250vº, 1836).

[4]      Uma cópia destes estatutos foi publicado no Jornal Oficial da Região Autónoma da Madeira, II série, nº 13, 2º suplemento, referente ao dia 23 de Abril de 1987.

[5]     De acordo com os estatutos aprovados em 1934, heréus desta levada eram todos aqueles cujos nomes e moradas figurem no respectivo cadastro, com a indicação do direito que lhes corresponde nos bens ou no património da mesma levada.

[6]      Este terreno de acordo com a acta da reunião da Comissão Administrativa de 4 de Abril de 1935 e da acta da Assembleia Geral de 26 de Janeiro de 1936, seria adquirido em 1936, pelo valor de 17.500$00.

[7]      Livro de Actas da Comissão Administrativa da Levada do Estreito, reunião de 31 de Março de 1935.

[8]      Livro de Actas da Comissão Administrativa da Levada do Estreito, reunião de 27 de Fevereiro de 1938.

[9]      Livro de Actas da Comissão Administrativa da Levada do Estreito, reunião de 13 de Julho de 1943.

[10]     Livro de Actas da Comissão Administrativa da Levada do Estreito, reunião de 18 de Junho de 1944.

[11]     Livro de Actas da Comissão Administrativa da Levada do Estreito, reunião de 19 de Janeiro de 1947.

[12]     Diário da Madeira, 8 de Julho de 1928. Nesta altura era presidente da Direcção Diogo de Freitas.

 

Câmara de Lobos

Dicionário Corográfico
Edição electrónica

Manuel Pedro Freitas