CÂMARA DE LOBOS - DICIONÁRIO COROGRÁFICO

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Artigo de Manuel Pedro Freitas sobre a história das levadas do concelho de Câmara de Lobos, publicado no Jornal da Madeira de 18 e 25 de Abril, 2, 9, 16 e 23 de Maio de 1999

 

 

Levadas

 

Levada de Braz Gil de Faria, levada do Salão, levada da Castanheira, levada de Álvaro Figueira, levada de Fontal Figueira, levada da Fonte Serrão, levada da Serra, levada do Moinho, levada da Rocha, levada da Achada, Levadinha, levada do Estreito, levada Nova de Câmara de Lobos, levada da velha, levada da Quinta Grande, levada da fonte Gordinho, levada do Rochão, levada da Serra, levada da Velha, etc. são denominações que servem ou serviram para designar levadas existentes no concelho de Câmara de Lobos, e construídas para transportarem água, desde as suas nascentes ou suas ribeiras até aos terrenos, cujo solo se prestava à agricultura.

Algumas destas denominações perderam-se no tempo e caíram em desuso, outras, resistiram à erosão dos anos e continuam a serem utilizadas, outras ainda, não passam de formas diferentes para designar a mesma levada. Contudo, todas elas, fazem parte da história do povo madeirense, em geral e, da população camaralobense, em particular, no seu esforço de tornar produtivos terrenos desprovidos de água, tendo para isso de vencer a adversidade da sua orografia.

 

Ainda que hoje a agricultura já não seja a mais importante actividade da população do concelho de Câmara de Lobos, tempos houve em que tal não era assim e chegou, mesmo a constituir, praticamente, o seu único meio de subsistência, excepção feita naturalmente à comunidade piscatória da freguesia de Câmara de Lobos, em que a pesca assumia a primazia na sua fonte de rendimentos.

 

A necessidade das levadas

Contudo, para que a actividade agrícola fosse possível, houve necessidade de, desde os primórdios do povoamento da Madeira, dotar os terrenos da água necessária, uma vez que as nascentes ou os cursos de água existentes, situavam-se, na maior parte das vezes, fora das zonas agrícolas, obrigando por isso à construção de um número quase que infinito de levadas, tarefa que, na maior parte das vezes não era fácil de concretizar.

 

As dificuldades na sua construção

Com efeito, devido à adversidade das características orográficas dos terrenos madeirenses e às distâncias das nascentes ou fontes de abastecimento de água, relativamente aos solos a irrigar, a sua construção, para além de muitas vezes levantar problemas técnicos de difícil resolução para a época, revestia-se de elevados custos.

Apesar de algumas das levadas madeirenses terem sido construídas pelo Estado ou com apoio estatal, na sua maioria essa construção partia da iniciativa particular e era levada a cabo, pelos proprietários ou colonos dos terrenos a irrigar, quer de forma individual, quer reunidos em associações de heréus por forma a mais facilmente, não só poderem suportar os elevados custos da sua construção, como também, da sua manutenção.

Assegurado o direito às águas e construída a levada, era então a água distribuída, em giros, pelos seus proprietários, numa quantidade e frequência dependentes de vários factores, onde se incluíam o caudal de água disponível, o número de proprietários ou heréus, a área agrícola a irrigar, etc.. Ocasionalmente, a água excedentária era vendida tanto aos heréus que dela ainda necessitassem, para além da quota a que tinham direito nos giros, como a outros agricultores.

Com base nesta metodologia, construíram-se importantes levadas privadas que se mantiveram ao longo dos tempos em actividade, tendo no entanto algumas delas, nos últimos anos, perdido a sua importância ou até sido abandonadas, não só em virtude da utilização dos terrenos para a construção habitacional, como devido à entrada em funcionamento da levada do Norte e à integração na sua rede de produção e distribuição, das nascentes e condutas pertencentes às antigas levadas.

 

O desaparecimento de levadas centenárias

Com efeito, com a inauguração da levada do Norte, ocorrida a 1 de Junho de 1952, não só muitos dos direitos das águas que abasteciam estas levadas, como as suas condutas, passaram para a posse dos Serviços de Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira. Como contrapartida, os antigos heréus viriam a beneficiar do acesso à água da levada do norte em condições privilegiadas e sem terem de se confrontar com os problemas de gestão existentes no interior das associações ou comissões a que pertenciam e que, desta forma, acabariam por se extinguirem, arrastando consigo também o fim das levadas, como associações, e a perda de um historial e património centenário.

Ao que supomos saber, das antigas associações de heréus existentes nas freguesias de Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos e Quinta Grande, só uma, a da levada do Estreito é que ainda não se extinguiu completamente, não por necessidade de gerir a levada, mas unicamente por questões de património ainda não solucionado.

 

As levadas e os moinhos

Como curiosidade, refira-se que muitas das levadas construídas com o objectivo de irrigar os terrenos agrícolas, também acabariam por ser utilizadas para mover moinhos.

Com efeito, vários moinhos viriam a ser instalados, no percurso de muitas das levadas do concelho e não raras vezes, encontramos fiadas de dois, três e quatro moinhos pertencente a um mesmo proprietário, dispostos em linha recta, no trajecto da levada e implantados sucessivamente em níveis inferiores, aproveitando-se na maior parte dos casos o declive dos terrenos. Depois da sua passagem pelos moinhos e da utilização da força motriz por ela produzida para os mover, a água retomava novamente a levada.

 

As levadas e os lavadouros

O facto de não existir distribuição de água canalizada ao domicílio, obrigava a que, nos meios rurais, a população para lavar a roupa tivesse de recorrer aos cursos de água então existentes, nomeadamente às ribeiras, às levadas ou até a alguns poços que serviam de armazenamento de águas de nascentes, para posterior utilização na rega. Por esse facto, tal como acontecia com os moinhos, ao longo do trajecto das levadas era frequente encontrarem-se rudimentares estruturas, que serviam de lavadouros onde a população lavava a sua roupa. A água entrava nessas pequenas infra-estruturas, era utilizada na lavagem da roupa e depois voltava novamente à levada.

 

O sindicato agrícola de Câmara de Lobos

Relativamente à construção da levada do Norte, nunca será de mais recordar que o Sindicato Agrícola de Câmara de Lobos foi o seu mais importante pioneiro e impulsionador.

Fundado a 23 de Setembro de 1927, o Sindicato Agrícola de Câmara de Lobos propunha-se estudar e promover melhoramentos agrícolas, defender os interesses dos seus associados e especialmente pedir ao Governo, nos termos do Decreto com força de Lei, nº 5887 de 10 de Maio de 1919, a concessão de aproveitamento de águas públicas que se encontrassem abandonadas no interior da ilha da Madeira e pudessem ser canalizadas e utilizadas na rega de terrenos compreendidos na área do concelho de Câmara de Lobos e das freguesias limítrofes.

Em 1928, o sindicato é autorizado a proceder aos estudos necessários à elaboração do projecto definitivo do aproveitamento das águas das ribeiras do Seixal, fontes da Hortelã, do Inferno, Malhada e Partilha, condição imprescindível à concessão definitiva dessas águas. Contudo, apesar de ter sido elaborado o projecto da levada que iria trazer água da parte norte para a parte sul da ilha da Madeira, nomeadamente às freguesias da Ribeira Brava, Campanário, Quinta Grande, Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos e de ter sido dado pelo Estado, em 1932, parecer favorável tanto para a construção da levada como para a concessão do apoio estatal a esta obra, a iniciativa do Sindicato Agrícola de Câmara de Lobos, só viria a ser concretizada em 1951, não pelo sindicato, mas pelo Estado, através da Comissão dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira.

 

As levadas do concelho em 1863

De acordo com um relatório, elaborado, a pedido do Governador Civil, no ano de 1863, por António Francisco de Cairos Rego, administrador do concelho, sobre as levadas do concelho de Câmara de Lobos [1], existiam, nessa altura, a Levada Nova de Câmara de Lobos, que teria sido construída, segundo a tradição, pelo Estado, pouco tempo depois da dos Piornais e tendo, por essa altura, cerca de 200 anos; a levada de Braz Gil [de Faria], que tradicionalmente era tida como a mais antiga do concelho, sendo na altura também conhecida por levada das Preces, denominações hoje caídas em desuso, em detrimento da de levada do Salão; a levada da Castanheira, que apesar de actualmente ser mais conhecida por levada dos Quintais, foi também denominada de levada de Álvaro Figueira e de Fontal Figueira; a levada dos Terços; a levada do Estreito; a levada da Serra e a Levadinha, havendo também algumas levadas na freguesia do Curral das Freitas, todas tomando água na ribeira dos Socorridos e em nascentes nessa freguesia existente, sem no entanto fazer referência às suas denominações.

Ainda que hoje já não pertencendo ao concelho de Câmara de Lobos, o relatório fazia ainda referência às levadas do Tranqual, da Corujeira e da Roda, todas na freguesia do Campanário, estando, no entanto, omitida qualquer referência à existência de levadas na freguesia da Quinta Grande.

 

Outras levadas e poços

Para além destas, o concelho de Câmara de Lobos teve outras importantes levadas.

Por outro lado, um pouco por todo o concelho, encontramos poços destinados ao armazenamento de água proveniente de pequenas nascentes e que depois era utilizada na irrigação de terrenos situados habitualmente nas suas proximidades ou não muito distantes, utilizando para o efeito pequenas redes de levadas.

É de supor que, na sua maior parte, tenham sido construídos para irrigar uma única propriedade, não sendo, no entanto, de excluir que noutras situações, muito mais raras, a construção desses poços e respectiva rede de levadas tivessem resultado da conjugação de esforços de vários agricultores. Posteriormente, em consequência da fragmentação dos terrenos, motivada pelas sucessivas transmissões de propriedade, quer em consequência de partilhas entre herdeiros, quer por venda a terceiros, os direitos às suas águas também foram alvo da mesma segmentação, uma vez que estavam adstritos à terra. Por esse facto é que, nas escrituras correspondentes à compra e venda de terrenos agrícolas, frequentemente encontramos referências aos direitos sobre a água desta ou daquela levada, deste ou daquele poço.

Apesar de terem uma diminuta dimensão, estes pequenos poços, geram ainda hoje, principalmente em áreas não abrangidas pela levada do Norte, água para um número significativo de proprietários ou heréus, que na maior parte dos casos, apesar de não estarem organizados, encontram formas consensuais para limpar ou reparar as levadas e disporem das águas a que têm legalmente direito.

 

 

Levadas da freguesia de Câmara de Lobos

Na freguesia de Câmara de Lobos, para além da Levada Nova de Câmara de Lobos, da levada de Braz Gil de Faria também conhecida como das Preces ou do Salão; da levada da Castanheira, também conhecida por levada de Álvaro Figueira ([2]), de Fontal Figueira ([3]), ou dos Quintais e da levada dos Terços, que apesar de se constituir na freguesia do Estreito, na Ribeira Fernanda, irriga sobretudo terrenos de Câmara de Lobos, outras existiram destacando-se entre elas a levada da Fonte Serrão ([4],[5]).

 

Levadas da freguesia do Estreito

Na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos [6], para além da levada do Estreito, da Levadinha e da levada da Serra, referenciadas em 1863, existiram várias outras como a levada do Poço do Moinho ([7]), com origem no sítio da Quinta de Santo António e irrigando os terrenos agrícolas deste sítio; a levada do Jardim da Serra, que tinha como ponto de partida um poço existente na quinta do Jardim da Serra; a levada dos poços da Rocha ([8]), situados no Foro, a levada dos poços dos Meninos de Belém, situados no lugar da Pedreirinha e a levada do poço do Dantas, situado no Cabo do Podão.

Para além destas, será de referir, entre outros, ainda poços como o das Chaves, dos Ganchos, da Cal, etc. hoje ainda existentes e que apesar de não se regerem por estatutos, servem de reservatórios a águas utilizadas, na agricultura, por heréus.

O Elucidário Madeirense refere, ainda a levada dos Tis, cuja data de construção e percurso se desconhece.

 

Levadas da freguesia do Curral das Freiras

Na freguesia do Curral das Freiras, ainda que o Elucidário Madeirense ([9]) refira a existência unicamente das levadas da Achada ([10]), da Fonte Gordinho e do Rochão, outras existem como a levada do poço do Aviso, a levada do poço da Capela, a levada da Fajã Escura, a levada do Pico Furão, a levada da Fajã dos Cardos e a levada da Ribeira Gumeira, todas de heréus.

Nesta freguesia mas sem interesse em termos de irrigação, uma vez que parece que nunca chegou a funcionar, mas com interesse lendário e histórico não poderemos deixar de invocar a chamada levada da velha que foi cavada nas rochas do Curral das Freiras, na encosta do Estreito e pretendia ao que se supõe saber, conduzir água desde o Curral das Freiras até à Quinta Grande e Campanário.

 

Levadas da freguesia da Quinta Grande

Na freguesia da Quinta Grande, existem duas importantes levadas, uma denominada de levada da freguesia da Quinta Grande ([11]), também conhecida por levada da Ribeira e outra de levada do Pomar.


 


[1]      Livro 4º. de Registos de Ofícios da Administração do Concelho a fls. 5v, 6, 7 e 8. Ano de 1863. Câmara Municipal de Câmara de Lobos.

[2]     Na sua reunião  de 28 de Janeiro de 1953, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos delibera notificar a Comissão da Levada de Álvaro Figueira para que repare a levada sobre a Rua Dr. João Abel de Freitas, o que quer significar que esta levada corresponde à mesma que noutros documentos é referida como levada da Castanheira.

[3]      SILVA, FA. MENESES, CA. Elucidário Madeirense, Vol. II, SRTC, Funchal, 1984, pg. 249-250.

[4]      Ainda que não sendo descrita no Elucidário Madeirense, ela existe. Ver anuncio de convocatória publicado no Diário da Madeira de 21 de Agosto de 1938 e em O Jornal de 4 de Janeiro de 1940.

[5]      Em 6 de Janeiro de 1944 era seu presidente João Ernesto Pereira.

[6]      Sob a denominação de levadas da freguesia do Estreito englobam-se todas as levadas que pertenciam a esta freguesia antes da desanexação das suas zonas altas e criação da freguesia do Jardim da Serra.

[7]      De acordo com o Diário de Noticias de 10 de Novembro de 1933, esta levada pertencia à freguesia do Estreito e os seus heréus deveriam reunir-se para aprovarem os seus estatutos.

[8]      O Diário da Madeira de 20 de Janeiro de 1934, ao publicar um extracto da acta da sessão da Junta Geral de 18 de Janeiro de 1934, refere que João Soares Dantas, na qualidade de presidente da Comissão Administrativa da Levada dos Poços da Rocha, no Estreito de Câmara de Lobos, havia feito um requerimento onde tecia várias considerações à acerca de uma exploração de águas que haviam afectado direitos da sua levada.

[9]      SILVA, FA. MENESES, CA. Elucidário Madeirense, Vol. II, SRTC, Funchal, 1984, pg. 249-250.

[10]     O Jornal de 27 de Fevereiro de 1945 publica um anuncio para uma convocatória de uma Assembleia Geral de heréus.

[11]     Na edição de 19 de Abril de 1921 do Diário da Madeira é publicada uma convocatória para uma reunião da sua Assembleia Geral.

 

Câmara de Lobos

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Manuel Pedro Freitas

Câmara de Lobos, sua gente, história e cultura